PALEÃO

Fabrica de Paleão
Génese e historia
Planta e sua evolução
Apetrechamento técnico
As lógicas do mercado
Fotos da fabrica
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Produção
Elaborado por
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Planta da Fábrica e sua evolução

 

   A Fabrica de Fiação e Tecidos de Soure, tal como o nome indica era uma fabrica completa, isto e, integrava no mesmo edifício todas as operações do fabrico dos algodões, incluindo a tinturaria e a estamparia. O seu projecto inicial de 10000 fusos cumpriu-se na nova localização. No entanto, aos duzentos teares iniciais acrescentam-se mais entre 1893 e 1898 Como fabrica mecanizada caracterizava-se por possuir motor central de energia, para assim accionar todos os seus equipamentos e maquinas.

    Mas qual era o tipo de planta industrial que se veio a construir no Paleão?

    Quando em meados da década de 90 a fabrica encerrou, a sua área total coberta era de 17694 m2 e a descoberta era de 231580 m2. Abrangia um conjunto de edifícios e construções que eram a expressão da sua existência secular entre 1891 e o encerramento de que fomos testemunha. Para alem dos edifícios fabris da Fiação e Tecidos e da Maceração do Linho, constava de uma habitação do administrador da casa do director, do bairro operário e algumas casas para os mestres e engenheiros, da Casa do Operário (o centro cultural e de lazer), de um recinto desportivo e de edifícios agrícolas, entre os quais um moinho e uma azenha. A nível das infra-estruturas energéticas dispunha ainda da velha maquina a vapor da Buckley & Taylor, de uma central eléctrica pública ligada a rede e de uma central hidroeléctrica  própria, com sua turbina.

 

Planta Geral dos edificios e terrenos da fabrica de Paleão. Ano 1994.

 

    Subsistem dos últimos anos do séc. XIX e inícios do séc. XX algumas plantas desenhadas da Fabrica. A sua comparação permite entender a estrutura fabril e produtiva, bem como a sua evolução e transformação durante as primeiras décadas. Como seria natural, o empreiteiro F. Baerlein elaborou os seus desenhos para a Companhia Fabril e Industrial de Soure. Esses desenhos deveriam integrar o Arquivo da Fabrica de Fiação de Tomar ou o de Soure. Em Tomar encontramos um registo gráfico, com a planta e o alçado do portão principal da Fabrica. A identificação da serie de desenhos da firma construtora seria de muita utilidade para comparar as diferenças essenciais introduzidas no projecto fabril de Soure, entre a actuação de Bouvret e Baerlein. Os desenhos de pormenor ajudariam a precisar os conceitos introduzidos, para deles extrair as inovações e as continuações.

    A mais antiga planta geral (cerca de 1895) revela uma organização fabril orientada para as duas principais realidades produtivas. Um corredor geral divide a fabrica em duas partes distintas a fabrica de fiação e a fabrica de tecelagem. Nesta altura a área da fiação e maior do que a da tecelagem junto a fiação fica a Casa da Mistura, os Batedores e a Casa da Poeira. Em edifício isolado situa-se o depósito do algodão em rama .Na secção da tecelagem, um conjunto de oficinas ladeiam, pelo lado do corredor a sala dos teares. Entende-se que houve a preocupação de apetrechar a unidade fabril, tanto com maquinas das teias e das urdiduras, como sobretudo dos acabamentos. Dobragem, Urdideiras, Gomadeiras, Percha e Repassadeiras são as componentes de uma realidade fabril que neste espaço ainda, não atingira a perfeita emancipação das tendências manufactureiras que são bastante mais visíveis, para esta época, nas fabricas de lanifícios. Note-se a presença de um gabinete do mestre da tecelagem neste mesmo espaço, também partilhado pelo armazém do produto manufacturado.

    As duas secções ou fabricas, como se quiser chamar dependem ambas dos motores, pois são eles que impõem o ritmo da mecanização e o seu modelo fabril, nos finais de oitocentos Os seus tentáculos ou transmissões conferem a unidade ao conjunto, como veremos mais a frente.

 

Planta do terreno destinado para fabrica e seus accessorios. Ano 1885.

 

    Aparentemente independente da fiação e da tecelagem encontra-se a "Fabrica" dos tintes ou Tinturaria, com as suas oficinas de branqueio e enxugo. O modelo tecnológico das tinturarias deste período ainda estava muito preso as suas origens manufnctureiras. Esta secção da fabrica encontra-se separada por um corredor que alias a isola da tecelagem, pois as entradas para a tinturaria e anexos, como também para a serralharia fazem-se pelo exterior oposto a entrada principal.

    Reconheça-se uma tentativa, que veio a ser implementando e desenvolvida mais tarde, de apetrechar a fabrica de uma rede de canalizações internas para com bater focos de incêndio, aspecto que se encontra relacionado com as preocupações da Fabrica de Tomar que fora infectada por um pavoroso incêndio em 1883 ou de Soure que também tivera o seu em 1899.

    Em Março de 1897 decidem-se importantes alterações na estrutura organizativa da secção de tecelagem. Em primeiro lugar a área reservando a tecelagem expande-se, expulsando do espaço as oficinas primitivas de urdidura e de encarretamento, as engomadeiras e as repassadeiras, que vão ocupar a antiga tinturaria. A própria dobragem que se manteve no mesmo espaço retrai-se, diminuindo a sua área funcional. O aumento previsto de 144 teares provoca alterações na própria estrutura da casa das maquinas, exigindo mais uma maquina a vapor e um nova caldeira que vem acrescentar-se as existentes.

    A relação entre fiação e tecelagem encontra-se, agora, apenas separada pelo corredor central e, no corredor transversal da antiga tinturaria, abrem-se passagens entre a sala dos teares e as oficinas que ali serão ser colocadas. A nível arquitectónico a Fabrica de Paleão materializa um planta em área, com o espaço sustentado por colunas de ferro fundido que por sua vez suportam a cobertura em shed das duas oficinas principais. Este tipo de construção entrara em Portugal nas últimas décadas do séc. XIX, mais precisamente em Tomar em Arrentela, em Xabregas e em importantes unidades do Porto, como a Fabrica do Jacinto. A transformação da planta e modelo de fabricas algodoeiras do séc. XIX, oriundas da experiência inglesa arkwrigtiana teve uma materialização concreta na fabrica de Tomar depois do incêndio de 1883. Na Fabrica da Torre de Marinha, da Companhia de Lanifícios de Arrentela, a experiência data dos finais do século XIX. Soure e um dos exemplos mais acabados do novo tipo de fábrica onde a tecnologia inglesa e francesa se conjugaram.

    A cobertura em shed para além de permitir uma completa iluminação natural do espaço fabril, determina uma maior maleabilidade da localização das máquinas operadoras. Maleabilidade corria paralela com racionalidade, pois as transmissão obedecem ainda a sistemas de multiplicação e desmultiplicação da energia em arvore servindo quer a fiação, quer a tecelagem.

    Se do ponto de vista laboral e arquitectónico a Fábrica do Paleão era uma das mais avançadas de Portugal no seu tempo, na perspectiva paisagística e social representava ainda um estádio anterior. As suas características de fábrica-jardim, que desenvolveremos mais à frente, e a construção de duas casas de direcção, uma para o director fabril e outra para o administrador provam que se encontrava muito conotada com as fábricas patriarcais, onde o patrão era uma espécie de pai dos operários, habitando perto deles, convivendo com a sua vizinhança, controlando as suas acções e atitudes, tanto na fábrica, como na aldeia.

 

Planta geral da fabrica de fiação e tecidos. Ano 1911.

 

    "A Planta geral da Fábrica de Fiação e Tecidos de Soure", situada em Paleão, datada de 1911 mostra-nos uma unidade fabril completamente instalada e em pleno funcionamento, constituindo um documento precioso para o seu conhecimento global. Para além das duas mais importantes secções integradas - a fiação e a tecelagem - as restantes oficinas encontram-se descriminadas. O núcleo ligado à energia manifesta uma coeréncia interna bastante interessante e complementar. Ali se encontram a turbina das origens da unidade fabril, a bomba de água, a casa das máquinas a vapor (a antiga e a moderna), o dínamo para a electricidade. Uma nora hidráulica, colocada junto ao canal, remete-nos para as tradições agrícolas onde a unidade industrial se implantou. A fábrica dispõe ainda de oficinas de apoio à laboração (serralharia, carpintaria, cordoaria), vários armazéns e depósitos (entre os quais o do carvão de pedra), escritórios e vários telheiros.

    Mas, para alem dos espaços produtivos, a Fábrica do Paleão, representada na referida Planta, oferece-nos uma imagem do tipo de fábrica patriarcal e de fábrica-jardim que respira ainda as características da implantação fabril oitocentista. Junto à unidade fabril propriamente dita encontra se a Casa do Director ou Gerente e na extremidade oposta dez casas para operários com seus logradouros. Nesta altura, havia no espaço fabril uma escola primaria (cujos edifícios ainda subsistem) e a respectiva habitação do mestre-escola.

    A ideia de fábrica-jardim exprime não só a envolvencia paisagística do lugar e a sua ligação as actividades agrícolas, mas sobretudo a intencionalidade e o respeito pela condição humana, bafejando o trabalho com uma vaga ideia de lazer. Os empresários ofereciam assim ao operário um aspecto asseado e ajardinado do recinto fabril, um coreto para as filarmónicas e um contacto com as origens agrárias dos trabalhadores fabris.

    A manutenção de uma casa de trabalho como aquela e um determinado conceito de economia encontravam-se instalados no espirito dos empreendedores que ali tinham terras de semeadura, vinhas, oliveiras e arvores de fruto. Através dos documentos sabe-se que exploravam os benefícios da farinação no moinho de doze pedras do Paleão. As contas manifestam um continuado interesse por valores agrícolas, que não eram olhados displicentemente, mas sim atendendo ao aproveitamento económico integral, fosse quem fosse que beneficiasse com ele. Uma outra planta anexa, datada do mesmo ano e correlativa a primeira, dava uma ideia das propriedades na vala ou levada a montante da turbina, indispensável para a compreensão dos direitos da agua que serviam o canal de admissão ou o canal de descarga (estes já contemplados na primeira planta).

    Os referidos registos gráficos não deixam ver o palacete do administrador mandado erguer pela dupla Zink e Delfim de Guimarães, uma coqueluche de empresários requintados, trazendo-lhes afinal muitos dissabores.

    Preservou-se também uma outra planta, com desenho de alçados incorporados no vegetal, respeitante à organização da parte fabril correspondente ao período da administração da Fábrica da Areosa (entre 1917-1942). O interesse dos desenhos encontra-se focalizado na disposição das máquinas e nas linhas de transmissão de energia da casa das máquinas para os espaços fabris. Alguns tipos de máquinas podem ver-se em alçado o que valoriza mais o desenho, não muito comum.

 

Fabrica de tecidos de algodão de Paleão. Ano 1943.

 

    Seis anos depois da aquisição da fabrica de Paleão pela Empresa Fabril do Norte, os empresários resolveram substituir a energia a vapor pela eléctrica.

    Este facto, determinou a alteração da casa primitiva maquina a vapor num posto de transformação e na desmontagem de todo o sistema de transmissões mecânicas em troca de uma rede interna de distribuição de corrente eléctrica. Por esta razão desenhou uma nova planta geral da unidade fabril, na qual se identificaram as secções da fábrica e o tipo de máquinas em uso nos inícios da década de 50. A nova empresa organizara toda a produção a montante da fiação a partir dos novos conceitos que estabelecera para o fabrico em Paleão.        Nota-se a introdução de duas novas secções, logo a seguir ao depósito de algodão a Casa da Mistura e os Batedores. No restante, o esquema produtivo e substancialmente idêntico ao que vinha detrás. Quanto ao equipamento técnico verifica-se uma alteração do tipo de máquinas correspondente ás novidades tecnológicas da indústria algodoeira deste período. A Sala da Fiação e ocupada por várias baterias de cardas. Para alem dos laminadores, nota-se uma maior diversidade de bancos de fiação (grossos, finos, intermédios e de alta estiragem) e a existência de contínuos de dois tipos, entre os quais os da marca Rieter. No equipamento encontram-se registadas penteadeiras, que tinham ganho um lugar de relevo na fiação desde o tempo da Azevedo, Soares & Cª, Lda, ao mesmo tempo que as remetedeiras se diversificam nas de fita e nas de manta. Do ponto de vista organizacional, as plantas conhecidas dão-nos espaços perfeitamente preenchidos e muito racionalizados, com maior regularidade do que até então, onde se sente a omnipresença das transmissões eléctricas acopladas a cada máquina.

    Toda esta evolução na fiação obriga a uma maior mecanização da área a montante da tecelagem, visível sobretudo na redução da secção de urdidura e no aumento da área das caneleiras e encarretadeiras.

A omnipresença da electricidade e bem visível pela existência de diversas linhas de distribuição em toda a fábrica, ligadas a postos de transformação e nas quais nascia um pólo de trabalho mecânico correspondente a cada máquina, onde se acoplava um motor eléctrico apropriado. Através da observação desta planta fica-se com a noção da ocupação da área correspondente aos edifícios situados na Avenida Delfim Guimarães. Para além dos edifícios dos escritórios fora montada uma cantina e um refeitório. Nessa ala estavam ainda os bombeiros da empresa, um alpendre, uma garagem e um armazém.

    O acervo de plantas reunido para o estudo da Fábrica de Paleão não se esgota nas plantas gerais, fundamentais para o conhecimento do empreendimento industrial visto como um todo. Existem ainda plantas de pormenor e referentes a determinados acontecimentos que marcaram a vida da empresa, como o estabelecimento da estrada de Soure a Figueirinha, a das instalações junto ao Caminho de Ferro, etc. Outras ainda referem-se a projectos não concretizados, permitindo observar o pensamento do empresariado num dado momento concreto.

 

in CUSTÓDIO, Jorge, A Máquina a Vapor de Soure. Fundação Belmiro de Azevedo, 1998

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