PALEÃO

Fabrica de Paleão
Génese e historia
Planta e sua evolução
Apetrechamento técnico
As lógicas do mercado
Fotos da fabrica
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Produção
Elaborado por
Livro visitas

 

As lógicas do mercado: produtos e dependências

 

    Os inquéritos ao equipamento técnico da fabrica de Paleão e as informações registadas em planta sobre a maquinaria de serviço traçam-nos uma ideia das lógicas de mercado, no que respeita as maquinas motoras e maquinas operadoras provenientes da Europa industrial e muito particularmente da Inglaterra. Consultando a correspondência e as facturas arquivadas no espólio histórico da Fabrica de Tomar consegue-se ter uma ideia mais profunda dessa dependência e da importância real das encomendas realizadas, quer por Paleão, quer por Tomar na região de Manchester. John Baker & Sons, Ltd, com sede em Park Street Iron Works, em Oldham, forneceu, por exemplo os volantes, as rodas dentadas e outras acessórios, pelos anos de 1893. No entanto, as encomendas não se circunscrevem as maquinas. Envolvem algumas matérias-primas e sobretudo os acessórios. Os ncessórios ocupam, alias. uma das fatias mais importantes das encomendas realizadas. Firmas como a William Ayrton & Cº, estabelecida em 1870, Raby Fell, & Cº, Brooks & Doxey Thomas Hyland & Cº, com produtos para tinturaria, James Wood & Cº, Mac Connel & Cº, Limited, Felber Jucker & Cº, Ltd, todas de Manchester Dobson & Barlow Limited, de Bolton e varias de Oldham, Preston, Snlford, são empresas que surgem com regularidade na documentação consultada, mostrando no papel timbrado das cartas ou das facturas imagens surpreendentes das suas unidades fabris Mostruários das formas de publicidade muito interessantes, impondo-se também como marcas de prestigio! Prestigio e poder, pois demonstram o lugar que as empresas de Manchester tinham ocupado no contexto da industrialização europeia.

 

 

    Mas, se essas imagens vincam o lugar das aquisições e das relações comerciais e industriais, também marcam a dependência portuguesa a cultura tecnológica manchesteriana nessa viragem do século.

    Como essas maquinas e tecnologias tendiam a manter-se - anos sem mudança - persistia essa cultura, através das maquinas e seus acessórios, usuais na indústria portuguesa de norte a sul do pais, ultrapassando a região de Tomar e Soure. Nas Ultimas décadas da existência da fabrica de Paleão ainda a tecnologia de Manchester se encontrava presente. Os sprinklers eram de Manchester da Mather & Platt. Foram encomendados a uma empresa do Porto chamada Haker Sumner & Cª Lda, uma fusão dos Haker e dos Sumner dos finais do séc.XIX.

   A fabrica de Paleão transformava algodão em rama em fios e tecidos. Toda a organização fabril reflectiam esta questão central.

    Entre os problemas da administração constava a da regularidade do trabalho e a sua manutenção em todas as circunstancias.

    Uma das questões centrais era a qualidade de trabalho oferecido a fabrica pelos seus trabalhadores, em troca de um salário. Com a fabrica completa o número de operários rondava, em media, os 450 indivíduos (nos inícios do século) e 250 (nos anos 40), entre homens, mulheres e crianças. Um dos principais problemas residia na formação dos trabalhadores. Vimos acima como os empresários necessitaram de contratar operários no Porto. Durante o período da Companhia de Tomar muitos operários e operarias são deslocados de Tomar para Soure e os mestres são engajados no estrangeiro, na Inglaterra e em Espanha. No tempo de Zink, os mestres da fiação e tecelagem são catalães (Rhodes e Pages). Também há aragoneses. Outra forma de formar futuros operários era empregar crianças, mnas a nova lei sobre menores criou problemas, em 1894. Um controlo disciplinado do trabalho operário foi uma das soluções encontradas para cumprir as finalidades da fábrica. Mas acusava-se a administração de manter um clima de escravatura. A concentração industrial algodoeira nas grandes cidades de Lisboa e Porto e na região norte trouxe dificuldades na manutenção da fabrica de Paleão. Por varias vezes pensou-se em fecha-la. Prevalecia sempre o bom senso, no quando das dificuldades económicas portuguesas. Em 1940, diziam os empresários da Fabrica da Areosa, que “continua esta Fabrica - de Soure -, pelo seu fabrico de produtos baixos sem margem para exercer melhor assistência, representando, porém, para o povo um alto beneficio conseguir-se mante-la em laboração”.

    A documentação refere os tipos de produtos ali fabricados, embora esta questão merecesse um estudo mais aprofundado do que a mera enumeração. De uma produção virada para o mercado português que seria um dos objectivos da firma de 1888-1890, enveredou-se para uma produção muito diversificada e com uma percentagem elevada de produtos para o Ultramar como resposta à crise de 1890-91 e o Ultimatum inglês. Esta política manteve-se ainda durante os períodos seguintes, sendo usual no tempo da Empresa Fabril do Norte, SARL. O caracter de segunda fabrica de unidades fabris mais importantes foi uma espécie de estigma de Paleão, muito embora os seus produtos fossem de alguma qualidade.

    A osmose industrial que nascia da relação de dependência com a fabrica principal fazia com que produzisse segundo os ritmos impostos por Tomar, pela Areosa ou pela Senhora da Hora, Salientara-se, no entanto, pelo seu pano cru e pelas suas estamparias e riscados, quer cardados, quer simples. Os seus algodões penteados tinham fama. Fabricou o algodão hidrófilo, mas Tomar nunca deixou de perder a sua marca de fabrica e o seu nome.

 

 

    Depois havia as gamas de lenços, de meias, de toalhas, de barretes, de chitas pretas, de saias, de guardanapos, de camisas de linho (a atestar uma área antiga de cultivo de linhos e cânhamos, mais tarde industrializando pela Maceração da Trofa e de Paleão e pela Senhora da Hora, de Matosinhos), mantas, kaki, camisolas.

 

 

    O inquérito e cadastro industrial de 1940-41, da Comissão Reguladora do Comercio do Algodão, refere que a Fabrica de Paleão, durante os primeiros meses da guerra mundial, fabricava (num regime de três dias de trabalho semanal durante 30 semanas), 85735 kg de fio, nº 8, 14, 16, 18, 20, 22, 27, 30 e 40. Quanto a produção de tecidos fabricava 604565 m2. Em período de contenção, durante o qual continuava a produzir o seu pano crú, mas também as bretanhas, as sarjas e as estamparias, para alem do pano de lençol de 1,30 m de largura. No tempo da Empresa Fabril do Norte, as suas linhas continuam a produzir-se e novas marcas também, que foram guardadas nas vitrines da Casa do Operário, em Paleão, para orgulho dos seus habitantes. Outros produtos vieram a ser comercializados, como as fraldas, as sacas de merendas, os aventais, os panos de cozinha, embora de 2º qualidade. Muito embora os tempos fossem outros, Paleão beneficia do prestigio e da grandeza industrial da Senhora da Hora, pois a empresa e a mesma. Assim as marcas registadas que celebrizaram a fabrica de Matosinhos (Relógio, Coração, Pescador, Clérigos, Invicta), acabam por ser também suas. Os produtos também.

 

 

in CUSTÓDIO, Jorge, A Máquina a Vapor de Soure. Fundação Belmiro de Azevedo, 1998

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